sábado, 9 de junho de 2018

QUE FILOSOFIA DE VIDA APRENDI PROGRAMANDO

Vida de programador pode ser muito divertida, mas as vezes a coisa é um inferno. Entrei agora, nem estou o mercado (é meu primeiro ano na faculdade em Tecnologia de Análise e Desenvolvimento de Sistemas), e não poderia dar piteco nenhum quanto a qualidade do código de alguém, mas percebi que programação pode te ensinar muitas coisas práticas, além de um programa, para a vida. Vou contar quatro delas:
1.Caso erro de compilação, não adianta se estressar, sua situação só mudará quando você tiver a paciência de procurar onde deu errado e concertar.
O mundo moderno permitiu que as pessoas transfiram para terceiros a responsabilidade pelos próprios problemas. Se você não resolver, o problema não se resolvera cedo, ou não se resolvera.

2.As coisas mais insignificantes, como um ponto e vírgula, pode fazer toda a diferença no resultado final.
Pequenas atitudes fazem muita diferença num relacionamento, seja namoro, amizade, familiar, etc. A atitude mais insignificante hoje em dia é a empatia, ninguém presta atenção nela, com a internet menos ainda, mas quando alguém a utiliza, é perceptível a diferença.
Mas calma! Não precisa roubar a dor alheia, muito menos banaliza-la.

3.Você não é especial!
Sempre haverá algo a mais a se aprender.
“Todos são especiais”, dizem. Mas isto gera uma contradição: se todos são especiais, ninguém é especial!
“Mas cada um é especial em algo especifico”. Se você nasceu em uma determinado tempo, há pessoas que nasceram antes e que estão estudando antes de você. Você pode ser inteligente, pode ser forte, pode ser bonito(a), etc. mas não é o único, antes de você, houveram outros, e depois de você, haverá mais.
O comediante Emo Philips certa vez disse:
“Eu achava que o cérebro era o órgão mais maravilhoso do meu corpo. Depois, percebi quem estava me dizendo isso”
Você só é mais um.
Dizer “você é especial” é muito fácil, é a lição central de todo charlatão que vende livros motivacionais. Mas aprendi a aproveitar a vida do jeito que ela é, e nós somos: uma merda! Mas tudo bem. Reconhecer que você não é o mais inteligente te motivará a estudar mais, reconhecer que você é falho te motivará a corrigir seus erros e estar em constante evolução.
“A sabedoria é um paradoxo. O homem que mais sabe é aquele que mais reconhece a vastidão de sua ignorância.”  
— Friedrich Nietzshe

4.Mesmo que funcione, não quer dizer
que esteja certo.
Se o objetivo a ser cumprido não foi satisfeito, não esta certo.(Aqui me restrinjo à códigos). Assim como não é certo justificar os meios pelo objetivo (Aqui é uma conduta ética).
“A verdade é a luz da alma; esta luz não conhece declínio. Com efeito, ela irradia-se com força sobre a alma, de maneira que esta não pode nem pensar nem dizer que não é, sem que o homem se contradiga a si mesmo; pois se a verdade não é, é verdadeiro que a verdade não é: logo algo é verdadeiro; e se algo é verdadeiro, é verdadeiro que a verdade é; logo, se a verdade não é, a verdade é.” — São Boaventura
Com esta máxima de S. Boaventura, é logicamente racional defender a frase de Chesterton, acima, que já virou clichê.

O QUE É FILOSOFIA? - B. Mondin

Academia de Platão. Pintura de Rafael Sanzio (1510).

O homem, diz se, é naturalmente filosófico, “o amigo da sabedoria”. E é verdade. Ávido de saber, não se contenta em viver o momento presente e aceitar passivamente as informações fornecidas pela experiência imediata, como fazem os animais. Seu olhar interrogativo que conhece o porquê das coisas, sobretudo o porquê da própria vida.

Mas enquanto o homem comum, o homem da rua, formula estas interrogações e enfrenta estes problemas de maneira descontínua, sem método e sem ordem, pessoas há que se dedicam a estas pesquisas todos o seu tempo e todas as suas energias, e propõem-se a obter uma solução concludente para todos os ingentes problemas, que espicaçam a humana, através de uma análise aprofundada e sistemática. São estas as pessoas que costumamos chamar “filósofos”.

Mas então, o que é exatamente a filosofia?

É um conhecimento, uma forma de saber e, como tal, tem sua esfera particular de competência; sobre esta maneira de busca busca adquirir informações válidas, precisas e ordenadas. Mas enquanto é fácil dizer qual é a esfera de competências das várias experiências científicas, não é igualmente cômodo delimitar o campo de pesquisa próprio da filosofia. É sabido, por exemplo, que a botânica estuda as plantas, a geografia os lugares, a história os fatos, a medicina as doenças etc. Mas a filosofia, que estuda ela? No entender dos filósofos, ela estuda tudo. Aristóteles, o primeiro a pesquisar rigorosamente e sistematicamente a natureza desta disciplina, diz que a filosofia estuda “as causas últimas de todas as coisas ”. Cícero a filosofia como sendo “ o estudo das causas humanas e divinas das coisas" Descartes afirma que a filosofia “ ensina a bem raciocinar ”. Hegel concebe uma filosofia como " sabre absoluto ". Whitehead julga que seja tarefa da filosofia “ fornecer uma explicação orgânica do Universo ”. Poderíamos citar muitos outros filósofos que definem uma filosofia como o estudo do valor do conhecimento, quer como pesquisa sobre o fim último do homem, quer como estudo da linguagem, do ser, da história, da arte, da cultura, da política etc. Com efeito efeito, coerentes com estas definições discrepantes, os filósofos estudaram todas as coisas. Devemos, pois, concluir que a filosofia estuda tudo? Sem dúvida. Isto por duas razões.

Em primeiro lugar, por que todas as coisas, além de poderem ser examinadas a nível científico, podem sê-lo também um nível filosófico. Assim, os homens, os animais, as plantas, a matéria, já estudados por muitas ciências e sob diferentes pontos de vista, são suscetíveis também de uma pesquisa filosófica. Com efeito, cientistas se interrogam sobre a constituição da matéria, perguntam-se o que é a vida, como estão estruturados os animais e o homem, mas não chegam a enfrentar cetos problemas também referentes ao homem, aos animais, às plantas, à matéria: por exemplo, o que seja o existir. Especialmente com relação ao homem, do qual as ciências estudam múltiplos aspectos, são muitos os problemas que nenhuma delas enfrenta (enquanto os supõe já resolvidos), como o valor da vida e do conhecimento humano, a liberdade, a natureza do mal, a origem e o valor da lei moral. Somente a filosofia se ocupa destes problemas.
Em segundo lugar, por que enquanto as ciências estudam esta ou aquela dimensão da realidade, a filosofia tem por objeto o todo, a totalidade, o Universo tomado globalmente.
Eis, pois, a primeira característica que distingue a filosofia de qualquer outra forma de saber: ela estuda toda a realidade ou, de algum modo, procura apresentar um explicação completa e exaustiva de um domínio particular da realidade.

Mas há também outras três qualidades que contribuem para dar ao saber filosófico um caráter próprio e específico: o instrumento de pesquisa, o método e o escopo.

O instrumento de trabalho, de pesquisa, de análise de que a filosofia se utiliza é a razão, a razão pura, o “raciocínio puro”, como diz Platão. Ela não dispõe de microscópio, telescópios, maquinas fotográficas etc. Não pode estabelecer controles com instrumentos matemáticos nem apressar suas operações recorrendo a computadores. Mesmo os instrumentos cognitivos de que se utiliza todo o homem e todo cientista, os sentidos e a imaginação, ao filósofo só servem na fase inicial, para conseguir alguns conhecimentos do real, para o qual depois volta o olhar penetrante da razão. O trabalho verdadeiro e próprio da pesquisa filosófica é realizado apenas pela razão; esta, para subtrair-se a todo tipo de distração, encerra-se em seu sagrado recinto, longe do barulho das máquinas, da sedução dos prazeres e da práxis, da confusão dos sentidos, em solitária companhia com o próprio objeto.

O método da filosofia é essencialmente raciocinativo, embora não exclua algum momento intuitivo (quer na fase inicial, que na final). Mas os processos raciocinativos são múltiplos, e os mais importantes dentre eles são a indução e a dedução. A filosofia utiliza ambos: o primeiro, para ascender dos fatos aos princípios primeiros; o segundo, para descer de novo dos primeiros princípios e iluminar posteriormente os fatos, para compreendê-los melhor.

Além da natureza e do método, a filosofia se distingue das ciências também no fim (escopo). A filosofia não está voltada para fins práticos e interesseiros, com a ciência, a arte, a religião e a técnica; estas, de um modo ou de outro, sempre têm em vista alguma satisfação ou alguma vantagem. A filosofia tem como único objetivo o conhecimento; tem em vista simplesmente pesquisar a verdade em si mesma, prescindindo de eventuais utilizações práticas. A filosofia tem um objetivo puramente teórico, ou seja, contemplativo; não pesquisa por nenhuma vantagem que lhe seja estranha, mas por ela mesma; por isso, como disse egregiamente Aristóteles na Metafísica (A, 2, 982b) ela é “livre” enquanto não esta sujeita a nenhuma utilização de ordem prática, e portanto se realiza e se resume na pura contemplação do verdadeiro.

Já dissemos anteriormente que todas as coisas são suscetíveis de pesquisa filosófica. Por isso, pode haver uma filosofia do homem, dos animais, do mundo, da vida, da matéria, dos deuses, da sociedade, da politica, da religião, da arte, da ciência, da linguagem, do esporte, do riso, do jogo etc. Mas, na realidade, os que se chamam filósofos estudaram de preferência apenas alguns problemas, os que são conhecidos com o nome de lógica, epistemologia, metafísica, cosmologia, ética, teodiceia, psicologia, política, estética, antropologia cultural e axiologia; por isto estas constituem também a parte principais da filosofia. A lógica se ocupa do problema da exatidão do raciocínio; a epistemologia, do valor do conhecimento; a metafísica, do fundamento das coisas em geral; a cosmologia, da constituição essencial das coisas materiais, da sua origem e de seu devir; a psicologia, da natureza humana e de sua faculdade; a teodiceia, do problema religioso, ou seja, da existência e da natureza de Deus e das relações que os homens têm com ele; a ética, da origem e da natureza da lei moral, da virtude e da felicidade; a politica, da origem e da estrutura do Estado; a estética, do problema do belo e da natureza da arte; a antropologia cultural , do problema da cultura; uma axiologia , do problema dos valores.

Quem quer torna-se especialista nas disciplinas filosóficas deve, logicamente , estudar, profunda e sistematicamente, todos os problemas mencionados, sob cada um dos quais, através dos séculos, se acumulou uma bibliografia imensa. […]


“INTRODUÇÃO À FILOSOFIA” (PAGINAS 5-7)

sexta-feira, 27 de abril de 2018

ARGUMENTO ONTOLÓGICO DE ANSELMO E MODAL DE PLANTINGA


Sabidamente, a formulação original do assim chamado argumento ontológico está no Proslógio, de Anselmo de Cantuária (1033-1109), escrita em torno de 1077, ou seja, no século XI. A versão mais popular desse argumento pode ser apresentada com significativas simplificações. Ponto de partida é a definição de Deus como aquele do qual nada maior pode ser pensado. Nesses termos, Deus deve ser concebido como o Ser Maior, portador de todas as perfeições (bondade, beleza, justiça, etc.) em máximo grau. Cabe, então, a pergunta: pode Deus existir apenas na inteligência do homem? Não! Se Deus existisse só no pensamento humano, seria possível que se pensasse em um outro ser, com todas as propriedades do primeiro, e que, adicionalmente, existisse também na realidade. Ou seja: esse outro ser seria maior do que o primeiro, por ter a existência real como uma perfeição a mais. Nesse caso, entretanto, instala-se uma contradição: Deus é o ser do qual nada maior pode ser pensado, mas é possível pensar-se em outro ser que é maior do que Deus. A simples hipótese de que Deus existe só no pensamento humano conduz a um resultado contraditório, o que prova que ela é falsa. Logo, Deus não pode existir tão somente no pensamento, mas está presente também na realidade (Anselmo, 1973, p. 107-9).

Quando ainda era abade em Bec, na França, Anselmo recebeu de seus monges o pedido de formular um argumento puramente racional para provar a existência de Deus, sem apelo às Escrituras ou a dogmas de fé, mas dotado de conceitos e raciocínios que qualquer pessoa mentalmente sã pudesse entender e admitir. Por isso mesmo, o argumento ontológico tem a pretensão de ser a priori, no sentido de desenvolver-se exclusivamente no plano do pensamento.¹
O nome "argumento ontológico" é de conhecimento recente, atribuído por Kant, e a versão mais famosa deste argumento atualmente é a de Alvin Plantinga, conhecido por "argumento ontológico modal". Muitos atribuem a versão de Plantinga como provavelmente, um dos mais poderosos argumentos lógico-dedutivos a favor da existência de Deus. Ele acrescenta ao argumento de Anselmo as leis da lógica modal que age semelhante a uma prova matemática, assim, basicamente tenta provar a existência de Deus apenas com o auxílio do raciocínio abstrato. Talvez seja por isso que muitas pessoas têm dificuldade em entendê-lo e, por isso, o descartam logo de cara. Mas é de interesse curioso o fato de que nem Alvin Plantinga atribui ao argumento o status de "provar a existência", mas somente, o de que ele da somente uma "razoabilidade à crença". Também é curioso o fato de que é unanime, entre filósofos(sejam eles, ateus, teístas, agnósticos...), de que o argumento é valido, isto é, sua estrutura: sendo verdadeiras as premissas segue-se que necessariamente será verdadeira a conclusão. O que não é unanime, é se ele é um argumento forte para provar a probabilidade da existência de Deus ou da razoabilidade da crença em Deus. 

Antes de verificarmos o argumento, é necessário uma compreensão mínima de alguns conceitos para seu entendimento. Então, para que você possa entende-lo:

  • Devemos ter em mente que duas coisas são necessárias para que aceitemos que uma determinada coisa possa existir: Ausência de incoerência e ausência de contradições lógicas. 
  • Noção de mundos possíveis: Se uma situação é possível de ocorrer ou de ter ocorrido, dizemos que ela é possível em algum mundo. Ou seja, em um mundo possível, Hitler ganhou a segunda guerra, unicórnios existem(sem apelo à magia de seus chifres), etc. Lógico, são situações hipotéticas e não se deve confundir com o mundo real, desta forma, devemos entender a ideia de mundos possíveis como mundos logicamente possíveis, isto é, não há o por que negar que seria uma situação possível de ter ocorrido.
  • Propriedades de Ser ou objeto impossível (Significa que não existe em nenhum mundo possível), contingente (Existe em alguns mundos possíveis), necessário (Tem que existir em todos os mundos possíveis).
  • A Lógica modal é uma lógica de possibilidade (representada pelo símbolo ◊) e da necessidade (representada pelo símbolo □). Ela foi apresentada brevemente no artigo anexado em "mundos possíveis", logo acima.

1. http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/veritas/article/view/10356/0




O ARGUMENTO ONTOLÓGICO DE ANSELMO

Anselmo de Cantuária ou, Santo Anselmo, foi um grande filósofo escolástico. Além de sua formulação do argumento ontológico para existência de Deus, ajudou também consideravelmente na formulação de uma teoria da expiação, como explica William Lane Craig em sua resposta #472:

Aqueles que foram educados na teologia protestante talvez fiquem surpresos em aprender que a maioria dos Pais das Igrejas, de fato, tinham a visão de que a morte expiatória de Cristo foi desnecessária. Na visão deles, um ser onipotente como Deus tem o poder para perdoar pecados sem a necessidade de qualquer meio de expiação. Não foi até Anselmo (o criador do argumento ontológico!), no século XI, que a necessidade da morte de Cristo recebeu forte articulação e defesa. Para Anselmo, foi a honra de Deus, manchada por homens pecadores, que precisava ser satisfeita. Um Deus que simplesmente perdoou pecados sem satisfação pelas ofensas não preservaria a sua honra desse modo, o que é impossível. A teoria de Anselmo da expiação conecta poderosamente com a cultura de honra/vergonha do Oriente Antigo e então teria ressonado entre os judeus do primeiro século.
Santo Anselmo apresenta seu argumento ontológico em uma obra chamada "Proslógio", mas antes dela, já tivera escrito outra obra chamada "Monológio", com as mesmas intenções: provar a existência de Deus. O motivo de ter escrito uma segunda obra é de que a primeira era complicada de se entender, afirma Anselmo: "dei-me conta de que essa obra era difícil de ser entendida devido ao entrelaçamento das muitas argumentações". 

Durante séculos o argumento “ontológico” não teve essa denominação. Tanto Anselmo quanto Descartes lhe caracterizavam apenas como meum argumentum – meu argumento. Leibniz fala apenas de um argumentum dudum inter Shcolasticos celebre et a Cartesio renovatum – um argumento muito celebrado entre os escolásticos, agora renovado por Descartes. O primeiro a descrever o argumento como ontológico foi Kant.¹
Seu argumento pode ser estruturado da seguinte forma:
  1. Deus é o ser do qual não é possível pensar nada maior.
  2. Coisas existem apenas na inteligencia, ou na inteligencia e na realidade.
  3. É maior para um ser, existir na inteligencia e na realidade do que apenas na inteligencia.
  4. Portanto, Deus existe na inteligencia e na realidade.
Vamos analisar cada premissa:
1. Em seu argumento, Anselmo define Deus como "o ser do qual não é possível pensar nada maior", definição aparentemente consistente, por isso, adotada até hoje por teístas. Há alguma contradição ou motivo para não adotar esta definição? aparentemente não. Mesmo que o ateu negue a existência de Deus, ele compreende as palavras o ser do qual não é possível pensar nada maior, mesmo não admitindo sua existência na realidade, esta evidenciando sua existência na inteligencia.
2. Ele ilustra que algo pode existir somente na inteligencia, sem existir na realidade: Um pintor, por exemplo, já tem em sua mente a obra que pretende pintar antes de executá-la, mas nada compreende de sua existência real, pois ela ainda não existe. Somente quando a tiver pintado é que ele compreenderá também sua existência (ANSELMO, 1988, p. 102). Assim, uma coisa, ou existe somente na ideia, ou existe tanto na ideia quanto na realidade.
3. Se o ser do qual não é possível pensar nada maior existe na inteligencia, seria contraditório não existir na realidade, pois, se não o for, não será o ser do qual não é possível pensar nada maior pois assim poder-se-ia pensar que há outro ser existente também na realidade; e que seria maior” (ANSELMO, 1988, p. 102).
4. Logo, conclui Anselmo, “o ser do qual não é possível pensar nada maior existe, sem dúvida, na inteligência e na realidade” (ANSELMO, 1988, p. 102). 


Já contemporâneos de Anselmo o teria lançado [possíveis] objeções contra, como o monge Gaunilo. Suas objeções podem ser resumidas em uma ideia:

  1. O argumento ontológico permite que qualquer coisa maximamente excelente exista.
  2. É inconcebível que existam várias coisas maximamente excelentes.
  3. Portanto, é inconcebível que o argumento ontológico permita a existência de tais coisas.
Um exemplo que Gaunilo da é o da ilha maximamente grande. Segundo ele, é possível conceber um ilha maximamente perfeita, tal que nenhuma outra possa ser pensada. Se for possível concebê-lá, então ela deve existir, mas sabemos que não existe tal coisa como uma ilha maximamente perfeita, e então ela não deve existir. Desta forma, Gaunilo conclui que também um ser tal que nada maior pode ser pensado não deve existir. A resposta de Anselmo consiste em ressaltar que seu argumento não pode ser aplicado a nenhuma outra coisa com exceção do ser do qual nada maior pode ser pensado. Ilhasou qualquer outro objeto são contingentes, não necessários, por tanto este argumento só pode estabelecer a existência deste ser supremo, e de nada mais. Segundo Anselmo, uma ilha tal que nenhuma outra possa ser pensada é inconcebível na realidade, porque por mais que hajam muitas dançarinas nesta ilha, mais dançarinas poderiam ser adicionadas, de modo que não há um limite de grandeza para tal coisa.


1. http://faje.edu.br/periodicos/index.php/pensar/article/view/3655



O ARGUMENTO ONTOLÓGICO MODAL DE ALVIN PLANTINGA 

Alvin Plantinga é tido, ao lado de Richard Swinburne, como o principal filósofo da religião do mundo. É considerado pela revista Time, como a figura central em uma revolução silenciosa que trouxe a respeitabilidade da crença em Deus entre filósofos acadêmicos.¹ É Ph.D. em filosofia pela Universidade de Yale e atual ocupante da cadeira John A. O'Brien de filosofia na Universidade de Notre Dame. Além de sua versão modal do argumento modal, Plantinga desenvolveu também o argumento evolucionário contra o naturalismo, é o principal responsável em trazer o molismo à adesão em larga escala, teoria esta como uma alternativa ao arminianismo ou calvinismo e ainda lidera um dos avanços mais empolgantes no campo da epistemologia religiosa: a tendência, de defender a racionalidade da crença teísta não se baseando em argumento, mas com o que ele chama de crença “apropriadamente básica”.

Todos esses argumentos de Plantinga influenciaram bastante William Lane Craig, que tem o titulo de maior apologista (defesa da fé cristã) atualmente, de fato, 
ele disse que Alvin Plantinga é o seu filosofo de maior inspiração. Quanto ao argumento ontológico modal, na resposta #463 ele diz:  
Como você, eu estava há anos cético sobre o argumento ontológico. No máximo, ele serviu para mim como um modelo para Deus, o conceito de um maior ser concebível, o que implicou que a necessidade metafísica desse ser. Não foi até que eu li defesa de Alvin Plantinga do argumento em seu livro The Nature of Necessity [A Natureza da Necessidade] (Oxford: Clarendon Press, 1974) e as reações a ele que eu, para minha surpresa, tornei-me convencido de que este é realmente um bom argumento em favor da existência de Deus.
E na resposta #461:
esta pergunta que inquietava a Santo Anselmo. Ele queria encontrar um único argumento que comprovasse a existência de Deus em toda Sua grandeza. Ele estava prestes a desistir, quando descobriu seu argumento ontológico. Este argumento, caso bem sucedido, comprova a existência do maior ser concebível. Penso que o argumento ontológico é um argumento sólido a favor da existência de Deus. Mas não o vejo como um argumento isolado, ele também é parte do caso teísta cumulativo, pois outros argumentos teístas fornecem razão para pensar ser possível existir o maior ser concebível, a qual é a premissa chave do argumento ontológico.
Alvin Plantinga expõe seu argumento ontológico modal em seu livro chamado The Nature of Necessity (1974). Neste livro, Plantinga tenta mostrar que este argumento é válido e é racional acreditar na sua premissa principal, ou seja que “há um mundo possível em que a máxima grandeza é instanciada”.
Vale a pena sublinhar que Plantinga no capítulo 10 do livro The Nature of Necessity (1974) apresenta duas versões do seu argumento ontológico modal. A versão mais complexa, que envolve algumas noções metafísicas que podem ser controversas, como a noção de “propriedade mundo-indexada” e de “essência”, aparece nas páginas 213-116. A versão mais simples do argumento, em que não recorre a tais noções metafísicas, surge nas páginas 216-217.²
Logicamente me limitarei a versão simples. 

Diferentemente de Anselmo, Plantinga atribui a Deus, não "o ser do qual não é possível pensar nada maior", mas recorre às propriedades de ser maximamente grandioso e de ser maximamente excelente, isto é, ele apresenta o grau máximo de toda qualidade possível.
Plantinga concebe Deus como um ser que é "maximamente excelente" em todos os mundos possíveis. Plantinga leva a excelência máxima para incluir propriedades como onisciência, onipotência e perfeição moral. Um ser que tenha a excelência máxima em todos os mundos possíveis teria o que Plantinga chama de "grandeza máxima".³
 Seu argumento pode ser estruturado da seguinte forma:
  1. É possível que um Ser de Grandeza Máxima(SGM) exista.
  2. Se é possível que um SGM exista, então ele existe em algum mundo possível.
  3. Se um SGM existe em algum mundo possível, ele deve existir em todos os mundos possíveis.
  4. Se um SGM existe em todos os mundos possíveis, ele existe no mundo real.
  5. Se um SGM existe no mundo real, então ele existe.
  6. Portanto, um SGM existe.
Vamos analisar cada premissa:
1. Plantinga admite que não conhece argumentos convincentes a favor nem contra (1). Mas, mesmo assim, considera que não há nada de irracional em aceitar-se (1) como verdadeira, mesmo não havendo argumentos convincentes a seu favor.² Por não ser algo contraditório ou irracional, afirmamos que esta premissa é válida.
2. Em algum mundo possível existe um Ser de Grandeza Máxima.
3. Como o no argumento de Anselmo, o ser do qual não é possível pensar nada maior existe na inteligencia, seria contraditório não existir na realidade, o Ser de Grandeza Máxima não seria realmente grande se não existisse em todos os mundos possíveis pois entraria em uma contradição. 
4. Se o Ser de Grandeza Máxima existe em todos os mundos possíveis, ele existe no mundo atual, pois nosso mundo também faz parte do conjunto de mundos possíveis, mas é o mundo onde as possibilidades se colapsaram e manifestou somente uma dentre todas. 
Como exemplo ilustrativo, veja sobre o experimento mental do gato de Schrödinger ou mais especificamente sobre o estado de sobreposição quântica. 
5. Se Ser de Grandeza Máxima existe no mundo atual, obviamente o Ser de Grandeza Máxima existe. 
6. Segue-se logicamente que o Ser de Grandeza Máxima existe.
Em suma, Plantinga defende que o seu argumento estabelece a aceitabilidade racional da existência de Deus, pois uma vez que é racional aceitar a sua principal premissa, é racional aceitar a sua conclusão.² 

1. https://pt.reasonablefaith.org/artigos/escritos-academicos/introducaeo-a-ressurreicaeo-do-teismo/
2. http://artigos.domingosfaria.net/dfaria2016modal.pdf
3. https://pt.reasonablefaith.org/artigos/pergunta-da-semana/lutando-com-o-argumento-ontologico


OUTRAS VERSÕES DO ARGUMENTO ONTOLÓGICO

Muitos outros filósofos e matemáticos formularam suas versões do argumento ontológico, como Leibniz
DescartesSpinoza ou Gödel. Apesar de a maioria ja ter sido respondidos, é notável a grandiosidade, tanto histórica quanto lógico-filosófica do argumento
O argumento de Anselmo nunca foi bem aceito por teólogos. Criticado por Gaunilo logo à época de sua publicação, ele foi esquecido até meados do século XIII, quando Tomás de Aquino o rejeitou de uma vez por todas. Entre os filósofos, contudo, seu destino foi diferente. Sua constante presença na filosofia moderna alcançou o máximo de influência ao constituir, na leitura de Russell (1945, p. 417), a base de todo o sistema hegeliano. Seja válido ou não, concordamos com as palavras de Bertrand Russell: um argumento com uma história tão significativa certamente deve ser tratado com respeito


1. http://faje.edu.br/periodicos/index.php/pensar/article/view/3655

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VEJA TAMBÉM:

AUDIOLIVRO - "Proslógio (Meditação)". Santo Anselmo de Cantuária (1033-1109).
https://youtu.be/hjy79P7CzQQ

Como funciona o Argumento Ontológico?
https://www.youtube.com/watch?v=La4tOjJy5eA


É possível que Deus exista? Então Ele deve existir - O Argumento Ontológico Modal
http://pacocapessoal.tumblr.com/post/86160948011/%C3%A9-poss%C3%ADvel-que-deus-exista-ent%C3%A3o-ele-deve-existir

O Argumento Ontológico
https://medium.com/@vit00rmatias/o-argumento-ontológico-e39af897aa7c

ARGUMENTO ONTOLÓGICO E A LÓGICA MODAL
http://logosapologetica.com/o-argumento-ontologico-e-logica-modal/#axzz5DvEmgsvO

quarta-feira, 18 de abril de 2018

ARGUMENTO COSMOLÓGICO DE KALAM E PRIMEIRO MOTOR IMÓVEL


Não sei exatamente se existe alguma categorização de propriedades necessárias, mas pessoalmente as separo da seguinte forma:
  1. Condição Necessária 
  2. Objeto Necessário 
  3. Ser Necessário
A analogia do efeito dominó é completa como exemplo: 

  1. As peças são objetos, em uma queda houve um primeiro dominó que caiu e empurrou os demais. A este é dado a propriedade de OBJETO NECESSÁRIO.
  2. ‎Para a primeira peça desencadear um "efeito", é preciso haver condições propicias e adequadas: O primeiro dominó não poderia atingir o último senão através dos dominós intermediários, e uma distância mínima entre eles. A isto é dado a propriedade de CONDIÇÃO NECESSÁRIA.
  3. ‎Se analisarmos com mais precisão, poderíamos dizer que a mão que empurrou o primeiro dominó é realmente a causa primeira. E somente o indivíduo que contém a "intenção" possui a causa formal do tombo em sequência.* A isto é dado a propriedade SER NECESSÁRIO.


O ARGUMENTO COSMOLÓGICO DE KALAM¹ 
  1. Tudo que passa a existir tem uma causa.
  2. O Universo passou a existir.
  3. Por tanto, o Universo tem uma causa 
Nota-se que o argumento não necessita de uma explicação divina, mas suplica por uma. Se o Universo tem uma causa, esta causa deve ser externo a ele: o efeito não pode ser sua própria causa. Esta causa deve ser necessária ou contingente, mas a contingente, haverá de ter uma causa necessária: um regresso temporal e/ou causal infinito não pode existir. O Universo havendo uma causa necessária, haverá de ser esta causa um Ser necessário: Somente um Ser tem a posse da causa formal e a intenção em causa-la, este Ser portanto, é a causa do Universo, e a causa primeira.

PRIMEIRO MOTOR IMÓVEL 

Essa causa primeira, é chamada de O Motor Imóvel. Originalmente um conceito aristotélico que pretende demonstrar racionalmente a existência de um princípio supremo da natureza: 
Com efeito, o princípio e o primeiro dos seres é imóvel tanto em si mesmo quanto acidentalmente, mas produz o movimento primeiro eterno e único. E, posto que todo movido é, necessariamente, movido por algo, o primeiro motor é necessariamente imóvel em si, e o movimento eterno tem de ser produzido por algo eterno, e o movimento único por algo uno.  

ARISTÓTELES, 2006,1072 a, 25-36

TEÍSMO CRISTÃO 

São Tomás de Aquino defendeu o conceito do Motor Imóvel em sua via do movimento, a primeira das Cinco Vias.² 
“A primeira e mais clara se funda no movimento. É inegável, e consta pelo testemunho dos sentidos, que no mundo há coisas que se movem. Pois bem, tudo o que se move é movido por outro, já que nada se move mais que enquanto está em potência a respeito daquilo para o qual se move. Mas, mover requer estar em ato, já que mover não é outra coisa que fazer passar o que está em ato, à maneira como o quente em ato, por exemplo, o fogo faz que uma lenha, que está quente em potência, passe a estar quente em ato. Muito bem: não é possível que uma mesma coisa esteja, ao mesmo tempo, em ato e potência a respeito do mesmo, senão a respeito de coisas diversas, o que, por exemplo, é quente em ato, não pode ser quente em potência, e sim, que, em potência, é, ao mesmo tempo, frio. É, pois, impossível que uma coisa seja, por isso e da mesma maneira, motor e móvel, como também o é o que se move a si mesma. Por conseguinte, tudo o que se move é movido por outro. Mas, se o que move a outro é, por sua vez, movido, é necessário que o mova um terceiro, e, a este, outro. Não se pode porém seguir indefinidamente, porque assim não haveria um primeiro motor e, por conseguinte, não haveria mo­tor nenhum, pois os motores intermédios, não movem mais que em virtude do movimento que recebem do primeiro, da mesma forma que um bastão nada move a não ser que o impulsione a mão. Por conseguinte, é necessário chegar a um primeiro motor, que não seja movido por ninguém, e este é o que todos entendem por Deus”

Tomás de Aquino, “Summa Theologica”, I, q. 2, 2.3, primeira parte
Por que Deus é um Ser Necessário? Por ele ter a propriedade chamada Asseidade Divina:
Asseidade é a propriedade pela qual um ser existe em si mesmo, de si mesmo, ou existe como tal e tal de e para si mesmo. A asseidade tem dois aspectos, o primeiro é independência absoluta e auto-existência, sendo Deus não-causado, dependendo de nenhum outro ser para a fonte de Sua existência; o segundo é que Deus é completamente auto-suficiente, tendo em si mesmo o motivo suficiente para sua própria existência. Vemos isso claramente nas Escrituras dado o nome próprio de Deus "Yahweh" (sou o que sou: Êxodo 3:14 ). 
Gilberto Santos


O ARGUMENTO:
  1. Tudo que passa a existir tem uma causa necessária.
  2. O Universo passou a existir.
  3. Deus é um Ser necessário.
  4. Portanto, Deus é a causa necessária do Universo!


* Um acidente -como outro algo, ou o vento ter derrubado as peças- pode ser provável, mas somente o estado dos objetos estarem nas condições necessárias para gerar tal efeito, evidência uma causa formal e intencional.

ESTE É O MELHOR DOS MUNDOS POSSÍVEIS?


“E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.” 
Gênesis 1:31
Entende-se como mundo atual aquele que está em ato (no sentido aristotélico do termo), ou seja, aquele que está efetivado, aquele em que as coisas realmente são ou simplesmente o mundo em que nós nos situamos. O mundo atual é, ainda, um mundo possível visto que tudo que há nele é logicamente possível. Não devemos confundir mundo atual com mundo real, pois existe a hipótese de que os demais mundos são tão reais quanto o atual. Acontece que tudo que é logicamente possível não se esgota nas coisas e nos acontecimentos do mundo atual. Corriqueiramente imaginamos coisas que poderiam acontecer (como a possibilidade de estar com uma mulher bonita, ou ter mais dinheiro) e grande parte das vezes essas coisas são logicamente possíveis (como os exemplos anteriores). Convivemos, ainda, com a linguagem dos mundos possíveis quando entramos em contato com ficções de qualquer natureza. Quando extraterrestres invadem o planeta terra em um filme de Steven Spielberg podemos dizer que ele propõe um mundo possível onde isso esteja acontecendo. Assim a linguagem dos mundos possíveis satisfaz a nossa intuição na pretensão de englobar tudo que poderia acontecer em um só sistema.¹
O otimismo leibniziano consiste em garantir que Deus escolheu este como o melhor dos mundos, entre todos os possíveis. 

Pessoalmente, não acho que Deus criou o melhor dos mundos possíveis, mas arranjou a melhor configuração possível para um mundo! Isso consiste em dizer que outras melhores não são possíveis de se conceber, ou que simplesmente não funcionam, uma vez que o “mundo material” é limitado em recursos, logo suas configurações também o são. Por exemplo:

  1. Se pegarmos, n proposições, sua tabela-verdade consistira somente de 2^n possíveis resultados. 
  2. Se uma chave criptográfica tiver n bits, o número de tentativas para se descobrir a combinação será de 2^n; e se tiver n caracteres, o número de tentativas estará igualmente limitada a n! (leia-se n “fatorial”) [Para entender melhor]

Com isto, não só este, mas pode existir outros mundos que sejam igualmente melhores. Mas o que acaba gerando conflito e debate é o significado de "melhor". Se com melhor você quer dizer "moralmente bom", então não, Deus não criou, e não pode! Não por que não pode por incapacitação de poder, ele é incapacitado de criar "o melhor dos mundos possíveis moralmente bom", por que este mundo é logicamente impossível: a onipotência de Deus não é quantitativa, mas qualitativa! Ou seja, "o melhor dos mundos possíveis moralmente bom" é “logicamente impossível” por que uma vez que para algo ser bom, deve ter a intenção de ambas partes em “querer ser bom”, não havendo uma “intervenção divina coercitiva”.

Em suma, Deus escolheu a melhor configuração possível para a existência de um mundo, que pode ser muitos, e o que fazemos com ele é por nossa conta e risco.

Não digo que o mundo corporal é uma máquina ou um relógio que anda sem a intervenção de Deus, e professo absolutamente que as criaturas têm necessidade de sua influência contínua; mas sustento que se trata de um relógio que anda sem ter necessidade de ser regulado, porque senão se deveria dizer que Deus volta atrás. Deus previu tudo e cuidou de tudo de antemão. Em suas obras há uma harmonia, uma beleza já preestabelecida.²
“Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração”  

Gênesis 6.5-6